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Pessoas Com Deficiência E As Intervenções Clínicas Do Psicólogo

Publicado em 22/03/2010

Ao se trabalhar clinicamente com uma pessoa com deficiência, a construção da relação psicoterapeuta e pessoa deverá ser o alcance para os resultados satisfatórios apoiados em duas condições básicas fundamentais: a compreensão das vicissitudes causadas pela deficiência no desenvolvimento e ajustamento da pessoa e a atitude do profissional de psicologia. Para que o paciente atinja a chamada aceitação efetiva, muitas vezes, enquanto psicólogos, precisaremos “chegar” aos seus conteúdos inconscientes que geram sofrimentos oriundos de sua deficiência. Causam empecilhos para aceitação e acolhimento de seu real estado. E, para se dar tal acolhimento, precisará haver no paciente disponibilidade interna para equacionar limites e possibilidades, perdas e virtualidades.

Nesse universo, a transcendência deve significar a superação dos próprios limites impostos pela deficiência, ao seja, enquanto profissionais, devemos atuar na estimulação e amenização das deficiências secundárias da pessoa, suas dificuldades, expectativas sociais e implicações emocionais. Quanto mais a pessoa se aproximar de sua própria realidade, eliminando mecanismo de defesa ou negação, seu plano de consciência lhe permitirá ser um cidadão equilibrado e “pronto” para continuar vivendo ao meio que a cerca. Por meio dessa normalização, ela terá oportunidades e direitos iguais, riscos iguais, responsabilidades iguais, alegrias e angústias e inquietações como qualquer outra pessoa.

As Crianças Com Deficiência E Aconselhamentos Junto Às Famílias No Processo De Educação E Reabilitação

Publicado em 04/02/2010

Quando um casal se une pelo matrimônio, é desejo de ambos a constituição de uma família. A cada gravidez, há uma nova expectativa: o sexo do bebê, a cor dos olhos, se vai ter a covinha como a do papai, se o cabelo vai ser parecido com o da mamãe… Enfim, são feitos projetos com relação ao filho que ainda vai nascer. Entretanto, muitas vezes há problemas que começam na própria maternidade, logo após o nascimento. Obstetra, anestesista, pediatra, enfermeiros e outros especialistas que acompanham o parto, ao perceberem alguma anormalidade na criança, acabam, às vezes, dando a notícia de um modo muito frio, sem se preocuparem, a priori, com o trauma que podem estar provocando.

Um abalo assim provocado, causa reações de choro, silêncio absoluto, tristeza, grito… Os pais acusam os médicos ou o hospital de serem culpados pelo fato. Ao se verem numa situação como esta, muitos se sentem angustiados, sozinhos e sem saber o que fazer. Têm sensação de culpa; sentimentos de infelicidade surgem inevitavelmente. Estas reações negativas e pessimistas frente ao fato dificultam, ainda mais, o momento, podendo gerar consequências maiores do que as reais.

A Contribuição Da Psicologia Social Na Formação Da Consciência Emancipada E Na Saúde Mental Do Cidadão

Publicado em 22/05/2010

Nascida da crítica ao modelo de Psicologia empírico e positivista, a Psicologia Social sempre buscou mostrar o homem como um ser político e concreto, sujeito dos grupos e das comunidades. Buscando junto com eles a promoção de mudanças, essa linha da psicologia volta-se à população e à nossa realidade, trabalhando direta e concretamente nas comunidades carentes no sentido de entender os problemas e promover a saúde mental, atuando muitas vezes em conjunto com outras ciências, como por exemplo, junto à Sociologia. Mantendo a sua meta de estudar as inter-relações sociais e seus atores no processo de sociabilização, ganha cada vez mais espaço. Também estudando o psiquismo humano, visa compreender como se processa a construção do mundo interno do homem a partir de suas relações sociais vivenciadas, Enquanto outras linhas de atuação do psicólogo trabalham com o sujeito de forma praticamente individual, por meio da Psicologia Social, podemos trabalhar em grupos, junto à sociedade, en loco dos sujeitos sociais, junto à realidade brasileira, muito além das palavras impressas nos manuais da psicologia. Não ser apenas o “conselheiro atrás de uma mesa de consultório”; mas sim, personagem direto na orientação de mudanças no seio social.

Psicologia e Inclusão - Atuações Psicológicas em Pessoas Com Deficiência

Inclusão de pessoas com deficiência é um tema que ganhou toda a sociedade brasileira e chegou às faculdades de Psicologia. Só que pouco se tem escrito e publicado sobre a atuação de psicólogos dentro desse novo modelo social que busca a construção de uma sociedade igualitária para todos.

Partindo de uma visão história (teoria) e chegando a um diálogo contemporâneo, esta obra preenche uma lacuna de falta de informações específicas. É dirigida a graduando e profissionais da Psicologia, trazendo subsídios de atuações psicológicas para alunos com necessidades educacionais especiais em fase de inclusão escolar, pessoas com deficiência que ingressam ou já estão no mercado de trabalho formal e na vida como um todo.

Foca ainda a importância de se despertar na própria pessoa com deficiência a sua consciência política para que ela seja o seu próprio agente de inclusão!

Mais que um livro-texto, esta é uma obra que fala de possibilidades!

Saiba mais CLICANDO AQUI

O PSICÓLOGO COMO MEDIADOR NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA

A Psicologia é um campo de muitas possibilidades. E uma delas é atuar junto aos profissionais envolvidos em atividades educacionais (professores, diretores, coordenadores, educadores) oferecendo contribuições da Psicologia do Desenvolvimento, Aprendizagem, Ensino, Social, para melhorias nos processos de ensino e de aprendizagem.

Além do processo ensino-aprendizagem e desenvolvimento humano particularmente, algumas das temáticas de atuação dentro da Psicologia Escolar são a escolarização em todos os seus níveis, inclusão de pessoas com deficiências, políticas públicas em educação, gestão psicoeducacional em instituições, avaliação psicológica, história da Psicologia Escolar, formação continuada de professores, entre outras.

Hoje, muitos de nós psicólogos, membros de uma equipe escolar ou não, estamos sendo chamados para auxiliar professores com alunos inclusivos. Tenho recebido inúmeras mensagens de colegas perguntando-me:

Qual o papel e as mediações que um psicólogo deve exercer neste processo de Educação Inclusiva?

São várias possibilidades de mediações.  Inclusive, as inseguranças dos professores, acredito como sempre que a raiz do problema é a falta de informações claras e objetivas. O caminho para sanar tais inseguranças será promovendo encontros e/ou treinamentos de formação e discussões em que sejam apresentadas as novas concepções sobre a inclusão, que falam, sobretudo, das possibilidades de aprendizagem.

Assim elaborei O PSICÓLOGO COMO MEDIADOR NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA com estes tópicos de discussão:

  • as pessoas com deficiências e os novos desafios à psicologia;
  • o que é educação inclusiva e sua transição com a educação especial; a Lei Brasileira da Inclusão;
  • as bases psicológicas para a inclusão escolar;
  • habilidades e os efeitos positivos das deficiências;
  • o trabalho junto à equipe escolar; a ansiedade dos professores no processo de inclusão escolar;
  • caminhos da afetividade e o hábito de pesquisar;
  • educação inclusiva é ter pensamentos positivos e focados;
  • provisão de oportunidades equitativas a todos os estudantes;
  • a questão do bullying e os esportes adaptado; a parceria entre família, escola e comunidade;
  • os novos desafios ao ensino superior no Brasil;
  • a universidade e a sociedade inclusiva; as dificuldades de aprendizagem na atualidade.


ONDE ENCONTRAR

O livro digital ou a edição impressa pela Agbook clique aqui

As Características Positivas De Se Ter Uma Deficiência!

NOTA: Terceiro capítulo do mais recente livro de memórias de Emílio Figueira, O CASO DO TIPÓGRAFO - Crônicas das minhas memórias!

O título deste artigo pode até ser uma ironia: Pode ter alguma coisa positiva em ser ter uma deficiência? Sim, pode…

Durante muito tempo tenho dialogado no sentido figurativo com o psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky. Primeiro na época da faculdade quando me apaixonei por sua Psicologia Sócio-Histórica, onde a nossa psique se forma e vai se construindo por meio das interações humanas. Concordo. Depois, já mergulhado nas questões inclusivas e aspectos psicológicos das pessoas com deficiência, estudei anos a fio sua obra “Elementos da Defictologia”.

Vy, como eu o apelidei, afirmava que uma deficiência para uma pessoa pode ser uma condição muito mais estimulante do que limitadora. Se algo lhe falta em algum órgão ou lhe limita em algum aspecto, ela encontrará compensação em outros órgãos, buscará meios, saídas que lhe fará caminhar, encontrar o seu espaço neste mundo. O problema maior mesmo se dá no campo das interações sociais. Quanto mais as pessoas estiverem integradas em suas comunidades, convivendo de acordo com suas possibilidades, desenvolvendo outras habilidades, amenizando os efeitos que limitam suas deficiências.

Voltando um pouco à história, houve um tempo que o preconceito era muito grande em relação a nós, pessoas com deficiência. Vivíamos isolados, porque não dizer escondidos dentro das instituições e entidades assistencialistas. Eu vivi isso nos anos 1970!

Olhando mais para àquela época, entrando um pouco no campo da psicanálise, o francês Pierre Fédida dizia que a imagem da pessoa com deficiência muitas vezes é como um “espelho perturbador” na sociedade, incomodando por trazer à tona medos inconscientes, a impotência em reconhecermos nossas próprias deficiências, nossas próprias fragilidades. Essa imagem perturbadora derruba falsos conceitos que somos perfeitos, sensações de beleza. E muitos querem evitar ficar de fronte a uma pessoa com deficiência justamente para não perturbá-los em seus egos fragilizados e inseguranças mais secretas.



CRIANDO NOVOS CONCEITOS


No dia 7 de dezembro de 2017, em uma linda e emocionante cerimônia no Memorial da Inclusão, o meu curso Conversando Sobre Educação Inclusiva foi finalista do “VI Prêmio Ações Inclusivas Para Pessoas Com Deficiência” do Governo do Estado de São Paulo. Minha felicidade foi receber o Certificado das mãos do Prof. Dr Zan Mustacchi, Médico Geneticista e Pediatra. Em seguida ele foi homenageado como figura histórica da Inclusão no Brasil. E o Dr. Zan abriu o seu discurso com esta frase que me marcou muito: “A gente não pode mudar preconceitos. Mas a gente pode criar novos conceitos para substitui-los!”

E a história mostra que o Dr. Zan tem razão. Nos anos 1970 e 1980 nós pessoas com deficiência colocamos a cara na rua para lutar por nossos direitos e espaço na sociedade. Surgiria o conceito de Integração Social, onde entidades e instituições preparavam essas pessoas para serem integradas entre as pessoas sem deficiência aparentes, principalmente no mercado de trabalho.

Nos anos 1990 surgiria o conceito de Inclusão Social. Essa é uma história que não cabe aqui. Mas o fato é a Inclusão foi uma grande revolução que abriu as portas de muitas casas de pessoas com deficiência, lançando-as pelas ruas rumo às infinitas possibilidades, atingindo campos e posições até então imagináveis à nossa classe. Inclusive no amor, conforme eu direi no próximo capítulo. Essa revolução continua em plena ebulição e ninguém mais se arrisca em duvidar ou limitar pessoas com qualquer tipo de deficiência.

Aqui retomo Vygotsky quando ele dizia que o problema se dava no campo das interações sociais. Os conceitos de Inclusão Social já eram descritos por ele há 70 anos, afirmando que quanto mais as pessoas estiverem integradas em suas comunidades, convivendo de acordo com suas possibilidades, desenvolvendo outras habilidades, amenizando os efeitos que limitam suas deficiências.

Hoje digo com segurança que o Vy estava certo. E o que estamos assistindo atualmente confirma isto. É por isto que defendo como ninguém a Educação Inclusiva. A escola é o processo inicial na vida de todos. E nela todos ganham com a inclusão. Ao mesmo tempo em que as crianças aprendem a conviver com a diferencia – mesmo porque crianças são serem sem nenhum preconceitos e naturalmente inclusivas e receptivas a todos -, elas estão construindo uma sociedade totalmente igualitária. Não tenho medo em dizer que essas crianças nascidas depois do ano 2000, estão vindo com uma cabeça totalmente diferente e em outra pegada. Elas sim vão construir um mundo muito melhor!

Por outro lado a criança com deficiência têm inúmeros ganhos ao ser incluída. Quando ela vê colegas sem deficiência fazendo algo, alguma tarefa ou brincadeira, ela os imitará, sendo estimulada em se superar em suas próprias limitações. As descobertas de suas possibilidades serão constantes. Estímulos que ela não teria se ficasse em uma instituição de crianças com deficiência semelhantes a sua. Eu vivi isso na pele quando fui transferido da AACD para um colégio público em 1981.

Se antes as pessoas com deficiência poderiam ser um “espelho perturbador”, agora na Inclusão nossa imagem passou a se refletir de maneira positiva. E duas palavras ganharam forças: Superação e Inspiração!

Eu sei que até corro o risco de ser criticado por alguns colegas pelo o que irei dizer. Para mim, nós pessoas com deficiência temos um poder muito grande de adaptações em diversas situações. E a Inclusões nos trouxe vários desafios pessoais. E esse comportamento de superação nasce quando precisamos encontrar caminhos para coisas cotidianas. Com resultados positivos, alimentamos a autoestima indo para passos imagináveis.

Cheguei nesta conclusão observando em colegas com deficiência que convivo, além das três pessoas que admiro e estudo suas biografias: Nick Vujicic pela sua força por meio da fé. O maestro brasileiro João Carlos Martins, demonstrando o quanto os meios artísticos são inclusivos e revelam muitas superações. E o físico britânico Sttephen Hawking, com quem, modesta parte, eu já fui comparado pela Revista Veja.

E nos esportes, mais precisamente nos atletas paralimpicos, temos centenas de exemplos de superação, uma vez que as competições lhes cobra isso a todo instante. E como eu disse, essas ações se refletem em imagens positivas e inspiradoras à sociedade.



PESSOAS QUE VIVEM E PESSOAS QUE SÃO VIVIDAS


Está certo. Você pode me perguntar por que então com a Inclusão nem todas as pessoas com deficiência estão tendo as mesmas oportunidades? Isso envolve muitas questões culturais e pessoais. Realmente existem muitas pessoas humildes em longínquos lugares, desconhecedoras de seus direitos, dos recursos existentes que lhes é de direitos. Vítimas de péssimas políticas governamentais. Pessoas que não foram estimuladas a procurar melhoras, conformando-se com o seu próprio destino como se a vida fosse um fato consumado.

Por outro lado, ao longo de quase cinco décadas, encontrei muitas pessoas acomodadas. Fazendo de suas próprias deficiências muletas, vitimando-se, usando das justificativas desculpas onde o culpado sempre é o outro – principalmente o Governo – pelos seus próprios problemas. No fundo eles não querem “se levantar do sofá”, deixar a zona de conforto. E existem muitos desses que usam isso para ter lucros, estimulando a piedade alheia. Ou como dizia o antropólogo e meu amigo João Ribas, eles “vendem a própria deficiência”.

Bem, como disse Nelson Rodrigues, toda generalização é burra! Nesse contexto há muitas pessoas com deficiência acomodadas principalmente por falta de autoestima e informações corretas. Pegando uma carona na Programação Neurolinguística, percebo em seus discursos um bloqueio mental em frases com vícios de linguagens, tais como: “É difícil. É complicado. Eu não nasci para isso. Essas coisas não são para mim. É melhor mesmo eu me conformar com minha realidade e esperar a morte. O pouquinho que tenho já me basta”, dentre outras.

A melhor forma de ajudar essas pessoas, será fortalecendo suas autoestimas e lhes apresentar os caminhos de infinitas possibilidades…

O neo-psicanalista Éric Fromm dizia que há pessoas que vivem e há pessoas que são vividas pela vida, folhas secas que vão para onde o vento sopra. Tanto faz se são pessoas com ou sem deficiência.

Há dois tipos de se viver. Os Essencialistas, acreditando que todas as coisas já estão pré-determinadas, que nascemos com uma essência que não vai mudar; o que tiver que ser, será e com isso nos acomodamos diante da vida, sem se arriscar, usando essa postura comodista.

Outros são os Existencialistas, acreditando que nossa essência é construída com a possibilidade de ser; pessoas que correm atrás de seus objetivos e sonhos; buscam oportunidades, não temem em se arriscar nas mais diversas ocasiões; fazem das frustrações acúmulos de experiências para não errarem nas próximas tentativas; fazem das vitórias motivações para sempre progredir.

Certamente, os Existencialistas estão nadando de braçada na Inclusão!

LEV VYGOTSKY E INCLUSÃO ESCOLAR – Por Emílio Figueira

Hoje fala-se e promove-se muito a chamada Educação Inclusiva, uma proposta pedagógica surgida no ano de 1994, com a “Declaração de Salamanca – Princípios, Políticas e Práticas em Educação Especial”, proclamada na Conferência Mundial de Educação Especial sobre Necessidades Educacionais Especiais, que afirma em seu segundo parágrafo:  Toda criança tem direito fundamental à educação e deve ser dada a oportunidade de atingir e manter o nível adequado de aprendizagem. (…) Aqueles com necessidades educacionais especiais devem ter acesso à escola regular, que deveria acomodá-los dentro de uma Pedagogia centrada na criança, capaz de satisfazer a tais necessidades. Escolas regulares que possuam tal orientação inclusiva constituem os meios mais eficazes de combater atitudes discriminatórias, criando-se comunidades acolhedoras, construindo uma sociedade inclusiva e alcançando educação para todos; além disso, tais escolas proveem uma educação efetiva à maioria das crianças para que aprimorem a eficiência e, em última instância, o custo da eficácia de todo o sistema educacional. Mais quais são as bases psicológicas que pautam a Educação Inclusiva?

Quem lê “Obras Escolhidas, Volume V, Fundamentos de Defectologia”. com textos escritos nas décadas 1920/1930 pelo psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934), onde Vygotsky, descobrirá vários temas ligados à pessoas com deficiência. Notará que ele tenha foi o primeiro pensador a abordar ideias e conceitos centrais para um projeto de inclusão escolar. E isto fica bem claro no capítulo terceiro, “Acerca da psicologia e da pedagogia das deficiências infantis”, opondo-se eloquentemente contra a segregação escolar desses alunos.
Apoiando-se em sua teoria sócio-histórica e do desenvolvimento infantil e humano em geral, Vygotsky defendia a sócio-gênese como a condição para que a criança passe por transformações essenciais, conseguindo desenvolver suas estruturas humanas fundamentais do pensamento e da linguagem na qualidade das interações sociais em seu grupo (sociedade, família, escola, etc.). E uma criança com algum tipo de deficiência sendo isolada no âmbito familiar, escolar ou comunitário, na ótica vygotskiana, muito mais que apenas um problema social ou ético, poderia causar-lhe prejuízos psicossociais delicados na dinâmica sócio-gênica de seu desenvolvimento infantil sadio. É necessário intensas e positivas trocas psicossocias que fortaleçam esse desenvolvimento. E quanto mais for a segregação social – no círculo básico, a família, primeiro grupo que pratica a exclusão, com atitudes de rejeição ou super-proteção -, por meio da exclusão escolar ou da incompreensão comunitária, maiores serão os prejuízos no desenvolvimento intelectual, afetivo, social e moral dessa criança.
Desde a primeira fase de seus escritos, Vygotsky já se opunha contra o envio sistemático das crianças com deficiência para as escolas especiais, cujo projeto pedagógico teria uma orientação demasiadamente terapêutica e, com efeito, o afastamento crescente da criança do ensino regular. Os maiores prejuízos desses alunos estaria no plano social. Essas crianças segregadas ficavam debilitadas das trocas interpsicológicas, fundamentais às condições do desenvolvimento psíquico que derivam da qualidade das trocas sociais. E alunos com deficiência incluído no ensino regular poderia significar ganho para todas as partes envolvidas.
Uma das principais criticas feitas por ele às escolas especiais era por suas rotinas enfadonhas, artificiais e nada interessantes. A falta de atividades com sentidos de vida aos seus alunos, relacionadas a jogos, ao trabalho, ao desejo e a vivencia de uma linguagem viva. Falta de estímulos para que superassem suas limitações e dificuldades, formando uma concepção de mundo, a aquisição de conhecimentos fundamentais para entenderem as relações com a vida.
Vygotsky combateu sistematicamente uma proposta de formação de grupos com igualdade nos perfis, que se homogeneizarem a partir particularmente dos critérios de condição intelectual e de desempenho acadêmico. Por meio da individualidade de cada criança, surgiriam as trocas psicossociais, enriquecendo e contribuindo para o crescimento de cada um no grupo.
Essa mesma visão da importância de educar essas crianças em escolas comuns, Vygotsky teve com relação as que tinham deficiências intelectuais que, segundo ele, nem todas as funções estavam prejudicadas ao mesmo tempo. Mesmo que e as funções psicológicas superiores (percepção, atenção memória) dessas crianças encontrassem uma barreira em seu desenvolvimento, isso não ocorreria de forma mecânica, podendo encontrar outras vias de compensações nas relações sociais. Em um processo de compensação cada função mental tem influência de modo particular e qualitativo, alimentado pelo contato social, construído culturalmente. Com isso a criança poderia se alto estimular. “A socialização da criança não só ativa e exercita suas funções psicológicas, como é a fonte do surgimento de uma conduta determinada historicamente. E a relação social é a fonte de desenvolvimento dessas funções, particularmente na criança com deficiência mental” (VYGOTSKY, 1989, p. 109).
Se educadas no ensino especial, essas escolas tendiam a se acomodar, adaptando-se às condições e graus de dificuldades desses alunos em desenvolver pensamentos abstratos. Sua aprendizagem era fundamentada apenas no caráter concreto e na visualização.  E, para Vygotsky (1989), “a tarefa da escola consiste em não adaptar-se à deficiência, mas sim em vencê-la. A criança com deficiência intelectual necessita mais que a normal que a escola desenvolva nela os processos mentais, pois, entregue à sua própria sorte, ela não chega a dominá-los” (p. 119).
Dando uma olhada geral na teoria Sócio-Histórica de Vygotsky, fica fácil entender esses pontos de vistas que ele também tinha em particular com as crianças com algum tipo de deficiência. Defendia que a base do desenvolvimento do indivíduo é resultado de um processo sócio-histórico. Enfatizava o papel da linguagem e da aprendizagem nesse desenvolvimento, sendo questão central a aquisição de conhecimentos pela interação do sujeito com o meio. Suas concepções sobre o processo de formação de conceitos remetem às relações entre pensamento e linguagem. No processo cultural ocorre a construção de significados pelos indivíduos, sendo papel da escola a transmissão de conhecimento, que é e natureza diferente daqueles aprendidos na vida cotidiana.
Para Vygotsky, o funcionamento do cérebro é uma base biológica e suas peculiaridades definem limites e possibilidades para o desenvolvimento humano. Essas concepções fundamentam sua ideia de que as funções psicológicas superiores – pensamento, memória, percepção e atenção, colocando o pensamento tem origem na motivação, interesse, necessidade, impulso, afeto e emoção -, são construídas ao longo da história social do homem, em sua relação com o mundo. Desse modo, as funções psicológicas superiores referem-se a processos voluntários, ações conscientes, mecanismos intencionais e dependem de processos de aprendizagem.
A linguagem, sistema simbólico dos grupos humanos, representa um salto qualitativo na evolução da espécie. É ela que fornece os conceitos, as formas de organização do real, a mediação entre o sujeito e o objeto do conhecimento. É por meio dela que as funções mentais superiores são socialmente formadas e culturalmente transmitidas, portanto, sociedades e culturas diferentes produzem estruturas diferenciadas.
Por meio da cultura, o indivíduo têm os sistemas simbólicos de representação da realidade, onde ele estará em constante processo de recriação e reinterpretação de informações, conceitos e significações. O processo de internalização é fundamental para o desenvolvimento do funcionamento psicológico humano. A internalização envolve uma atividade externa que deve ser modificada para tornar-se uma atividade interna, é interpessoal e se torna intrapessoal. E toda criança – com ou sem deficiência – não deve ficar de fora ou ser isolada desse processo de aprendizagem que interage com o desenvolvimento, produzindo abertura nas zonas de desenvolvimento proximal que é a distância entre aquilo que a criança faz sozinha e o que ela é capaz de fazer com a intervenção de um adulto; potencialidade para aprender, que não é a mesma para todas as pessoas; ou seja, distância entre o nível de desenvolvimento real e o potencial, nas quais as interações sociais são centrais, estando então, ambos os processos, aprendizagem e desenvolvimento, inter-relacionados; assim, um conceito que se pretenda trabalhar, como por exemplo, em matemática, requer sempre um grau de experiência anterior para a criança.
Em uma visão geral do pensamento e escritos de Vygotsky, podemos concluir que, culturalmente, sempre atribuímos uma série de qualidades negativas à pessoa com deficiência, focando principalmente as dificuldades de seus desempenhos. Pouco conhecermos das suas particularidades positivas. Mas para Vygotsky (1989), “é impossível apoiar-se no que falta a uma criança, naquilo que ela não é. Torna-se necessário ter uma ideia, ainda que seja vaga, sobre o que ela possui, sobre o que ela é (p. 102). Enquanto profissionais de psicologia, educação ou áreas afins, precisamos perder essa cultura de focar a deficiência em si mesma, no que falta na pessoa e buscar outros entendimentos de como se apresenta seu processo de desenvolvimento. Ter um conhecimento classificatório geral das deficiências é importante, mas também precisamos formar profissionais que consigam transpor além desse conhecimento teórico. Psicólogos e pedagogos que estudem como essas pessoas interagem com o mundo; como organizam seus sistemas de compensações, as trocas, as mediações que auxiliam na sua aprendizagem; a participação ou exclusão da vida social; a internalização dos papéis vividos; as concepções que se tem sobre si mesmo; a sua história de vida. São propostas lançadas já há muitas décadas por Vygotsky.

ATENÇÃO ÀS HABILIDADES E OS EFEITOS POSITIVOS DA DEFICIÊNCIA NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA
 Em “Obras Completas – Elementos da Defectologia”, Vygotsky abordou de forma pioneira e sistemática assuntos relacionados à criança ou pessoa com deficiência com grande significado, gerando ideias e um novo modo de ver tais questões, descrevendo que essas pessoas têm dos tipos de deficiências:

  • Deficiência primária – trata-se da deficiência propriamente dita – impedimento, dono ou anormalidade de estrutura ou função do corpo, restrição/perda de atividade, sequelas nas partes anatômicas do corpo como órgãos, membros e seus componentes, incluindo a parte mental e psicológica com um desvio significativo ou perda.
  •  Deficiência secundária – são as consequências, dificuldades e desvantagens geradas pela primária. Ou seja, tudo aquilo que uma pessoa com deficiência não consegue realizar em função de sua limitação. Uma situação de desvantagem às demais pessoas sem deficiência, podendo o indivíduo encontrar limitações na execução de atividades, restrições de participação ao se envolver em situações de vida em ambiente físico, social e em atitude no qual as pessoas vivem e conduzam sua vida.
 A partir dessa divisão, Vygotsky passou a defender que profissionais de saúde e educadores precisam focar suas atividades em ajudar a pessoa a superar suas deficiências secundárias e não ficar focando nas deficiências primárias.
De todo o pensamento vygotskyriano, talvez a síntese mais interessante seja esta. Concentrando sua atenção nas habilidades que poderiam formar a base para o desenvolvimento de suas capacidades integrais e partindo dos pressupostos gerais que orientavam a sua concepção do desenvolvimento de pessoas consideradas normais, Vygotsky focalizou o desenvolvimento de criança com deficiência, destacando-lhes os aspectos qualitativamente diversos, não apenas de suas diferenças orgânicas, mas principalmente de suas relações sociais. Por meio de uma análise de uma compreensão dialética do desenvolvimento, na qual os aspectos tidos como normais e especiais se interpenetram constituindo os sujeitos, afirmava que essas pessoas não são menos desenvolvidas em determinados aspectos que as sem deficiência e sim, desenvolvem-se de outra maneira. Suas forças eram muito mais importantes do que suas faltas. Rejeitava as descrições simplesmente quantitativas, em termos de traços psicológicos refletidos nos testes psicológicos, destacando que estes instrumentos apenas indicavam uma visão incompleta ou unidimensional sobre a criança. Preferia, então, confiar nas descrições qualitativas da organização de seus comportamentos.
Ao nascer ou adquirir uma deficiência, a criança passa a ocupar uma certa posição social especial, levando-a ter relações com o mundo de maneira diferente das que envolvem as crianças ditas normais. Para Vygotsky, junto com suas características biológicas (núcleo primário da deficiência), começa a constituir-se um núcleo secundário, formado pelas relações sociais, onde as interações serão responsáveis pelo desenvolvimento das funções especificamente humanas, surgindo as transformações das funções elementares (biológicas). A criança, ao interagir com um mundo mediado por signos, transformará tais relações interpsicológicas em intrapsicológicas. Portanto, a consciência e as funções superiores se originaram na relação com os objetos e com as pessoas, nas condições objetivas com a vida.
Vygotsky afirmava que uma deficiência era, para o indivíduo, uma constante estimulação para o desenvolvimento intelectual. Se um órgão, devido a uma deficiência funcional o mortológica, não é capaz de enfrentar uma tarefa, o sistema nervoso central e o aparato mental compensam a deficiência pela criação de uma super estrutura psicológica que permite superar o problema. Os conflitos surgem a partir do contato da deficiência com o meio exterior e podem criar estímulos para sua superação. Assim, as deficiências poderiam causar limitações e obstáculos para o desenvolvimento da criança, mas também estimularia processos cognitivos comultativos.
São o que ele intitulou de efeitos positivos da deficiência, caminhos isotrópicos, no curso do desenvolvimento que permitem atingir determinados objetivos ou funções, é que marcam a singularidade do desenvolvimento da pessoa com deficiência. Embora o desenvolvimento apresente algum desvio fora da normalidade, seguindo caminhos especiais, para Vygotsky as leis que regem o desenvolvimento cognitivo e psicológico dessa criança são as mesmas que guiam o desenvolvimento das crianças ditas normais. O grau de normalidade depende de sua adaptação social. Destacava em todo o seu estudo a deficiência, não como obstáculo, mas como um desafio e processo criativo é a luta do homem com tudo que o limita.
 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
VYGOTSKY, L. Obras completas: fundamentos de defectologia. Cuba; Havana, Pueblo e Educacion, 1989, v. 5. 
COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
FIGUEIRA, E. Lev Vygotsky e Inclusão Escolar. In: Psicologia – Grandes Temas do Conhecimento. São Paulo, ed. 35, pag  61-66, dez. 2017.